Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre corôa de perpetuas tingidas de vermelho?

Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria generosamente permittido a manifestação saudosa...

Logicamente, pois, uma rapariga que passe no boulevard com duas rosas vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á constituição.

Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o bom Deus!

Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!

Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em meeting com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou; declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; e, finda a hora do meeting, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte republica do snr. Gambetta cambaleie ferida no coração!

Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...

Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama Gustavo Flaubert e é o auctor da Madame Bovary e da Educação Sentimental—quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.

Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma mais viva, mais pura e mais forte.

As suas creações—Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico, Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão, como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos rendez-vous.