Madame Bovary é hoje uma obra classica—e de certo o seu melhor livro. Quem a não conhece e a não relê—essa historia profunda e dolorosa d'uma pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida, agitada de appetites de luxo e d'aspirações de prazer, debatendo-se na estreiteza da sua classe como n'um carcere social, correndo a esgotar d'um sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais triste como dos funeraes da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na voluptuosidade, anciando sempre por alguma cousa de melhor, e arrastando uma existencia minada d'esta enfermidade incuravel—o desiquilibrio do seu sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão cheia de arsenico a liberta de si mesma!
Na Educação Sentimental, concebe esta ideia de genio: pintar n'uma larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a difficuldade de governar a democracia...
Salammbô é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na Tentação de Santo Antão, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e attinge ahi talvez a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a poderia comparar a uma carnação humana.
Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma figura elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo burguez.
Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim, o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu á luz dos ceus.
II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.
Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras essenciaes de outro francez.
Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo—um considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem importancia—corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de Bolonha.
Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões debaixo do paletot.