As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o mais solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa affirmação.

N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças de Augias:—e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os circulos, com um enthusiasmo esmagador e jovial.

Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa, só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.

E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.

Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito comesinhamente, uma reforma do imposto rural.

Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres inspiradores da oratoria. Basta de lyra! gritavam em 1848 os operarios famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel de Ville, estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agricola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a eloquencia! Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!

E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor do seu progresso.

Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe, para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes, capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou—e viu que a sua obra era boa.

Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia) foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das papoulas mais altas.

Na camara não haverá senão espiritos medios e planos—e toda ella será realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma eminencia, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre airosa d'onde vôem aves.