Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta, foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens, desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.

Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus, a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.

E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão, ignominiosamente expulsos da Republica.

Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim, e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. Amen.

Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul (em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.

Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França, como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,—porque o capital é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez, ameaçado no seu pão—e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte.

Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados como lobos, e dizimados a tiro, um a um.

Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova, em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de Morra o francez! acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de Viva a Allemanha!

Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu sangue, berre: Abaixo a França! Ha ahi apenas, para elles, esquecimento e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: Viva a Allemanha! Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a Italia—a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e quasi ironica de enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, n'estes ultimos dias, a Italia praticou, para com o sentimento francez, um outro e supremo ultraje.

O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma offensa?