Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. Em boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo: e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se o acceitar um convite para essa região é offender a França, o recusar o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Allemanha. Tudo isto é indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são duas terras francezas que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de Italia vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do oppressor, é, para os francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que uma reconciliação entre a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto mais que ás questões de politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de pecunia.
Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França tem o condão de enervar a Italia—de a enervar até ao desespero. É um facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente cita, lembra e celebra o beneficio da libertação—não é tedio então, é intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o libertou. É bem natural—porque o fraco não póde esquecer que o apoio trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.
Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente inuteis.
A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III, que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado. N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua magnanimidade.
Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem sido ajudada:—mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua imagem. Ella é e permanecerá a Italia-mater, a mãe veneravel das nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente, ella nos deu a musica.
IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.
N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo Brazil:—e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a elle tão tumultuosamente o perturba.
Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove com o que se passa dentro da linha dos boulevards—quando muito, dentro do recinto das fortificações.
Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate, se não impede totalmente a emoção.