Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.
De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza, que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da guerra. Por toda a parte grèves, e sangrentas; por toda a parte ruinas causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite, envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen) mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas pacata e hygienica de dona de hospedaria.
Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:—e aqui temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi convulsamente, uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar (porque o Czar é que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de Pariz, mesmo os mais revolucionarios e os que mais zelam a soberania popular, aconselham que se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) manda este mez a sua esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella respeitosa visita que ha um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero dizer ao Czar. E a França toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que quasi não têm nome, procura realisar uma demonstração de amizade pela Russia, tão ardente e estridente que fique historica e que marque mesmo o começo d'uma nova éra historica.
Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar no porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa. Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão particularmente penosas a uma nação altiva.
Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza (outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito, encarregava d'elle os francos—gesta Dei per Francos), a França estava, na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o ar embaraçado de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, poderosamente armada, com tres milhões de soldados facilmente mobilisaveis, a França estava entre as grandes potencias militares com o ar inquieto e timorato de um fraco entre valentões! Situação absurda mas logica, porque era republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes viam o seu republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua derrota, e o isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de guerra a terem por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, ares fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava sempre na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os seus pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de soldados, politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se desforrava d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é inobscurecivel e invencivel, a da litteratura e da arte.
Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga, uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas. E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz, como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente, mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia, vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr. Carnot fôsse um Rei de Direito Divino—mas ao mesmo tempo a França, como França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma força irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante Avelane abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.
Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild. Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e, ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild! E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo uma parte do poder.
A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer, como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.
A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a vehemencia do abraço:—e por isso o quer bem demorado, alumiado por todos os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de apotheose!
Mas a França é uma franceza—com todas as suas graças de sensibilidade e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater perante uma homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O acolhimento solene e carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande surpreza da Europa, á esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de todo a conquistou, e a França, que é uma franceza, está hoje namorada de Alexandre III.