Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo, escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção. Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo, o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas festas vão ter não sei que de nupcial.

O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja. E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar Te-Deums louvando o Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.

Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario: liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande «despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle, mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi brutalmente demittido!

Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa) e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular. E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as gares estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e timidos clamores de Viva o Czar!

Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo, acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;—e quasi se póde dizer que um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na sua essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado, as duas nações discordam—porque uma é ainda primitiva, governada por crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo de revoluções.

Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a confraternisação. A França, repito, é uma franceza—e, como tal, extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.

Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta élite.

Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que marcará talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella realmente existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha tradição)—e vão buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII (antes d'isso tambem quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, que foi esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, onde a sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam les petites dames. Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na guerra da Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos confraternisavam nas trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. Boa novidade! Já outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os cavalleiros inglezes e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso dos assedios, se juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar d'armas e d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. Em todos os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os officiaes fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as circumstancias, zurrapa ou champagne.

Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo lado da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte da Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»

É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.