Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se communica aos animaes.

Na Avenida da Opera um grande mail-coach, tirado por quatro puros cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles, terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se enfeita—e toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e apotheose.

Por vezes, entre couraceiros que cercam um landeau, alvejam ao longe os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo de viva o Czar, viva a Russia! Toda a massiça multidão arremette n'uma anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a compostura risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave, polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse—não cessei de louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a conquista das Gallias.

Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres—sobretudo as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio decorativo—nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão—ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia, o tenha immobilisado em dous generos que repete monotonamente, infinitamente: o Luis XV e Henrique II. Em todo o caso, possue grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças.

A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção buddhista.

As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições, corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os russos;—e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro lunchs, dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os toasts, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.

Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz valia uma missa, não ha duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma dyspepsia.

Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca e gravata branca como os escudeiros que servem o punch. Este inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, das amas ricas—alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros, o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!

Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê prestigio—esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo respeito. Ora, entre dous chefes de Estado—um revestido de uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot negro, com um chapéo côco—o respeito instinctivo da multidão impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres—e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideração dos homens. Os philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos—e para ella perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder.

Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia—e de que elle proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.