E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos do mundo.

Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil tivesse desapparecido—ou antes tivesse entrado n'aquella era de felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...

Un silence parfait régne dans cette histoire—como diz Musset. É de bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é unico na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, tumulto. De repente tudo se cala, tudo se some—e aqui ficamos na Europa boquiabertos, deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica. Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos? Não ha nada—não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor.

De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o Brazil—tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa pacificamente a vender café.


XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.

O «Theatro dos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus—e é agora de Hespanha que nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante que elles devem ser interessantes—porque de Hespanha nada póde vir que seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos.

A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;—pelo menos é a ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se comportam com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses, e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem constituir, o typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias estão bem d'accordo sobre o que é um heroe).

Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente, e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no ar:—No és nada, no és nada!! O seu cavallo jazia despedaçado n'uma poça de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo. O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia, indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a encolher os hombros, a gritar:—Pero si no és nada, hombre, si no és nada!

Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:—Fui eu! Fui eu! Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, e está ancioso por que todos saibam que foi elle, só elle! Não vá outro ser preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas mulheres, a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da confusão, podia fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha? Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: Fui eu! Fui eu! E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando ainda com orgulho para as janellas cheias de gente que fôra elle, só elle!