Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que no és nada, que no és nada!

O quadro é admiravelmente hespanhol—e só póde ser hespanhol.

O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo, o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece o sublime D. Quixote.

E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento—como superiormente o prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae perder—marcha jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se trata da sua patria.

Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria. Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra—e todo esse povaréo se ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada, mas o gesto.

O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins, tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente e ovante como elle pronuncia mi terra! Para elle a Hespanha é a maior das nações—pela força e pelo genio.

Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez, outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:—mas não tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro clima doce, a sua cosinha, os seus sports, os seus jornaes, as suas distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:—e o manchego e o navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo), declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e interesse, e brilho, no valia Merida! De resto, quem não tem ouvido hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo? A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a candida illusão de um patriotismo transcendente.

Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade, como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.

Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã, Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas, a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas, nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha fôra offendida:—e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades, fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto mais immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o embaixador allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois a guerra! Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas? cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio, ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era Jerusalem...

Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas, appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação heroica de um sentimento justo.