Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi ferida no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de europeus, mas de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o sacrilego seja forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, isto é, houve um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e guerra implacavel!

A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.

Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos hereditarios, com o odio de raça e com o odio de religião:—e os hespanhoes estão alli portanto n'um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas questões que tinham surgido entre hespanhoes e mouros na feira visinha de Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma agitação tão visivelmente hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, n'um certo ponto mais aberto, um forte.

Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco. Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.

Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio—e constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis, porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.

O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo, sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para castigar as tribus, uma sortida temeraria—que resultou numa tremenda derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram) e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção, por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira—que os hespanhoes retomaram.

Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas». Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou a gritar: Vamos todos a matar los moros! Foi um delirio. E a Hespanha, enthusiasmada, lá vae para a guerra!

E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia, migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruina—porque as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de incomparavel bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas serranias inaccessiveis. Para vencer esta formidavel guerrilha—é necessario uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha areaes. São as finanças hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É ainda o perigo de complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a penetrar no territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do sultão de Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, da Italia, que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras coloniaes, ou por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse vasto e rico sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus perigos, a antiga e classica questão do Oriente.

Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela, uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa? Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de Hespanha—e ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente.

Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser interessantes...