Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos Reis, esta risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz—entra toda a côrte de Alfania.
É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei d'Alfania vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga d'aquella corôa secular. É que já não comprehende o seu povo—e receia que o seu povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra simplesmente o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não a possuia. Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse não só é novo pelos annos—mas é novo pelas ideias. Principe de direito divino, foi todavia educado n'outros tempos, por outros livros—e conhece os direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.) e que ao velho Christiano parecem horrendos attentados contra a sua auctoridade real, são para este bom principe Hermann aspirações legitimas, que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que, com este novo povo da Alfania, tão differente do velho rebanho gothico, e já hoje cheio de theorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o principe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica.
Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes—emquanto o chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios. E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação democratica:
—Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!
Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei d'Alfania. O pobre Christiano suspira—e Alvarez parece bem contente.
Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.
O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento e uma carta constitucional.
O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna, no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel. Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte alegremente a manifestação—porque (como elle diz) se o suffragio universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o superfluo dos ricos:—mas como essa liquidação social não é possivel immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e clamorosa.
No palacio reina o terror.
Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, duvidam—tanto mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com enthusiasmo. E com effeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos—e as tropas foram apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. Que póde receiar, elle, que ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O povo avança sobre o palacio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei alli está que lhe estende com amor os braços. E elle mesmo abre as janellas—por onde penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados.