Pois a Antigone continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os seus herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança todas as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para a sua gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este dramaturgo de Athenas continue a enriquecer os outros.

Deixemos porém a Antigone e Sophocles—porque, das peças representadas em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é Os Reis (Les Rois) de Jules Lamaitre.

Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma historia da revolução do Brazil—da outra, da antiga, da que derrubou o Imperio.

Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia absoluta, com 38 milhões de vassalos:—mas esta sala não apresenta mais luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. A primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias estão em deploravel decadencia:—mas dentro em breve se descobre que as colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as toilettes de Mme Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.

Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania, Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brazil,—que aqui na peça e na Alfania tem o nome de Republica das Cordilheiras. O ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez! Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar ao bibliothecario (de quem foi condiscipulo no collegio Stanislas em Pariz) as suas attribulações diplomaticas.

Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da Cordilheira expulsasse um velho imperador tão magnanimo e tão paternal.

E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana mais repassada de bons sentimentos monarchicos!

O povo da Cordilheira não detestava, antes amava o seu imperador. Mas quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio—e constantemente percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. Ora um povo que não se occupa de philologia não gosta de ser governado por um philologo. Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu throno o seu banco do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a cobrir-se de pó—e o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raizes hebraicas. Além d'isso, aquelle imperio da Cordilheira desmanchava a harmonia republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo as venturas da republica—e só a Cordilheira sobrecarregada com uma monarchia e uma côrte! Era discordante.

De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito, toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor (um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera n'esta separação.

Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas—o imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez, tão amavel—e no fundo tão monarchica!