E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque (segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo da administração—é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do seu gabinete, fumando a cigarette do poder, as colonias do seu paiz!
No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua incompetencia. El-Rei porém mandava—e o cabelleireiro, com as mãos ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando Filippe II de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da Grande Armada, que partia a conquistar a Inglaterra—o pobre duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado—e todos sabem a boa conta que elle deu da Grande Armada. Para evitar esta deploravel confusão das profissões—se fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então essa classe de politicos, possuidores de aptidões universaes e de sciencia universal. Todo aquelle que, por gosto ou necessidade, se incorporava n'essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia, absolutamente seguro da propria capacidade, confeccionar codigos. O folhetinista arrojava a penna, empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o ministerio da guerra a reorganisar os exercitos. Nenhum jámais hesitára. E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiencia, acceitar a administração de uma horta de couves—estava prompto, soberbamente prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e commercio.
Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos certos de que, tocado de uma luz divina, da lingua de fogo, como os apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir, sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou commandar frotas.
A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo! como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?
Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga suspeita entre nós outros, os governados.
Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do universal saber—é bem possivel que outros muitos tenham encontrado da parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando de revez o galhardo moço na sua ascenção:—«Diabo! será este maganão um Barthou—que se calou?»
Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece, interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os Persas nas margens do Eurymedon:—e ahi o temos ainda, depois d'estes vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças, quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso, nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo, Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: Bravo, Sophocles! e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia—e que quando já não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.
Esta Antigone, que agora se representa no Theatro Francez, foi para Sophocles a peça mais rendosa—porque valeu ao poeta ser nomeado general ou stratege, como os gregos diziam, n'uma expedição a Samos. Singulares direitos d'auctor! E singular povo que recompensava a belleza de uma tragedia com o commando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de civismo heroico, a mais esplendida, a mais nobre das tarefas humanas;—e não se podia dar melhor recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se tornar um grande cidadão. De resto Sophocles era soldado: já se batera em Salamina, onde tambem combatera o velho Eschylo.
Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação occidental.
E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em Salamina—mas como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio lyrico foi escolhido para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos salvou a todos nós, homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, e talvez persas!