De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito. No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna, Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir. Densa fumarada, gritos, terror, tumulto—e immediamente, tambem, entre os deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta. Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham—e as salas das commissões são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses feridos ha um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da cama, e começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre anarchistas e fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de vaidade bem franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam a sua competencia. E o homem irritado com a contradição termina por gritar:

—Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora não me massem mais, que quero dormir.

Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á morte—por um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e sobretudo no seu bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francez e bem humano.

A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um principio pela violencia—são tambem dous actos absolutamente inuteis.

N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia. Ha depois o appetite morbido da celebridade—como o prova o facto de Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque, pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).

Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão, preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba—e supponhamos que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio do parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido, nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos. Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.

O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias, como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo, só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da classe já desagradavel dos martyres da liberdade, a classe, ainda mais desagradavel, dos martyres da auctoridade. De sorte que estas bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa sociedade, de actos impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão lançadas contra uma muralha.

A isto replicam os anarchistas:—«Assim é, mas nós não pretendemos destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este caso, aterrar? Significa provar, pela experiencia d'uma pequena destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.

O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres, prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas, por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão lamentavel desperdicio de energia heroica.

Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade burgueza—a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais timidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela propria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção formidavel de um para mil; e emquanto que a primeira bomba foi lançada contra um simples predio, a ultima é já arremessada contra o proprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está organisado em seita.