E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita fica desorganisada, desconjuntada:—mas para immediatamente se reorganisar além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso de crear martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue de martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol—a Ravachole. E cada coração anarchista lhe é um altar.
As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando a sociedade mata os anarchistas—é a sociedade que fabrica as bombas.
A violencia não cura—e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma exacerbação morbida do socialismo.
O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena, mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que reservava para os pobres o reino do céo.
N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora, começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media, bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios—e expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o direito de voto não o aquecia—e á hora de jantar, a liberdade de imprensa não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade a ser servo—e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o fidalgo perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera as armas na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento esforço só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava d'esse poder, não para dar ao proletario dentro do novo regimen a sua legitima parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a colera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu engrandecimento politico!
A decepção foi tremenda—e tremendos o odio e desejo de vingança contra o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova, mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por causa do regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do regimen economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas chimicas, dos excessos de producção, da concorrencia de todos os progressos do seculo, realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os pobres e os ricos, attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado na Republica, o socialismo.
Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi pueril, porque não attinge o mal! Associações, trade unions, barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc., etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de Estado.
O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e todavia por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias, de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito, ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella conterá sempre em si o virus horrivel:—o principio do direito, do Estado, da auctoridade!
A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma classe mais especial e odiosamente criminosa—a classe dos ricos, que foi quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos moraes e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsavel do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da protecção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já uma cumplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella concorre para que se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessario destruir tudo,—e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realisa a exploração, contra as proprias creanças que nascem, porque ellas já trazem em si o virus da submissão exploravel.
Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.