Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as miserias, é iniqua.

Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a organisação da sociedade—mas que depois, ou impaciente d'esse lento caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada, deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente em praticas d'uma ferocidade selvagem.

Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação morbida do socialismo.

Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos anarchistas.

Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem dous motivos:—um extremamente nobre e honroso, que é a nossa philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro, extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem secretamente e sinceramente sympathisamos:—um é o desgraçado, que padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes dous homens nos interessamos mais—se por aquelle que sensibilisa o nosso coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, qual nos emociona mais—o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.

Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação, do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era em extase:

—Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é bello!

«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração, esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do gesto de Vaillant—a belleza d'aquelle braço magro que se ergue lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado. Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica, a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que elle é tambem estheticamente bello.

Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:—em os cercar da mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.

Se é anarchista, se lançou a bomba—é d'elle a fama universal, que nem sempre conseguem os santos e os genios.