Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o que disse, o sobr'olho que franziu—tudo foi miudamente e clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a propria indignação tinha não sei que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que escrever a Lenda dos Seculos.
Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios; declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela imprensa—como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção temerosa de um para mil?
Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a imprensa o envolvesse em um silencio regelador.
Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que elle se separa em um momento de delirio.
Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil) nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo pavor—é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.
Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a, isolal-a—não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um mal original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração litteraria, de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a novidade do seu arrepio.
Toda esta larga aragem de favor é um crime—porque animando indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.
Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos, as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem) sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos affirmar sinceramente é que—cá e lá más bombas ha.