As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada no café Terminus e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada, dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber technico da administração urbana e rural.
Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se commova ou trema pela sua estabilidade.
É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do grisou no fundo das minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres, e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia.
É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão systematica de todos os anarchistas.
Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios. Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios, a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste, livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os, estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.
Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados. Indubitavelmente é uma dura lei;—mas vem de uma dura necessidade. Era realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o filho, sem correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter.
Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada, ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario perdido.
Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado, não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.
Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas lettras francezas um grande personagem—quasi devia dizer, dada a qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando o velho Buloz foi exilado da Revista dos Dous Mundos, por ter amado fóra da Revista, e com uma especie de amor que a Revista não permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr. Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual, das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director da Revista e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr. Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a Revista) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo, forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou enthusiasmos.
Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima, tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está creando um proverbio parallelo—«Só a grande professor, grande berreiro». Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu ensino ha indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre.