Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière, todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e outros males.

Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os auctores—quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação classica? Eu, na minha mocidade, folheei os Sermões e as Orações Funebres; mas não cheguei a penetrar, como devia, no Discurso sobre a Historia Universal. E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos, das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi inteiramente o seu apologista.

Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não sinta—e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades indefinidas, n'esse não sei que que lhe habita as fórmas e que faz com que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades que revelou n'esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de momento historico que concorreram para o desenvolvimento d'essas qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito—e só lhe faltará o sentir, pelo gosto, esse não sei que de intimo que constitue a belleza ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que sinta palpitar o coração quando lê as Noites e a Carta a Lamartine, ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e arrumadores de generos, que Carlisle chamava os resequidos.

Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel, todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer e lubrificar, d'aquelle leite da humana bondade de que falla outro inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr. Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d'um modo bem imperfeito, uma especie de jornalista.

O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel somma de defeitos.

Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos, está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o mundo—e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente monstruosidade!

A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado, nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições funccionaes. O Times e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias, desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da vida intima,—os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam indiscretamente da reportagem miuda.

Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico, com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condemnar—a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se trate d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou: «É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz.

N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto uma opinião cathedratica.