E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por homens côxos»—illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas opiniões.

E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma crise do Estado, ou sobre o merito de um vaudeville. Como exemplo picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos bocados de telegrammas truncados—senão receiasse entrar em um caminho escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos collegas do Paiz e do Tempo, armados da sua ferula.

Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado no Figaro de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa, e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as soldadas pelos seus lacaios!» Estes herdeiros das grandes casas de Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber o salario—fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça é o Figaro, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de Pariz—e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra, e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o Figaro descrevia as occupações da nobreza de Portugal.

Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E quando se tem como usual alimento do espirito o Figaro e consortes (e é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados) facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum, comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière—um juizo ligeiro, nascido de impressões fugidias.

A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.

Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica, sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a personalidade do auctor de Germinal, e, através d'ella, explicar a obra. Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce, não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as cocottes até aos jockeys, e desde os dandies até aos assassinos, succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o desenvolvimento da vaidade.

O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana. Em todos os tempos houve vaidosos—e não querem de certo que eu estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano. Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso, o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.

E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém através do jornal.

«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal—eis hoje, para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração e recompensa supremas.

Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas, os homens praticam todas as acções—mesmo as boas. Não é mesmo necessario que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não esteja devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano, no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que parecem preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n'estas semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin, e interviews nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com o habito do grande S. Domingos, exposto entre jockeys illustres e as cancanistas do Moulin-Rouge. É esta esperança do «artigo do jornal», que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias—e para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente, quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta:—Ah!