Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo—e estou mesmo prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito, tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres, para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!

Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière contra a imprensa—a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista, confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro impenitentemente.

Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu mea culpa e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso, queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae copiosamente larga—e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus jornaes com delicia.


XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO OFFICIAL.

Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue interviewar um rei.

(Este vocabulo interviewar é horrendo, e tem uma physionomia tão grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que exprime. O verbo entrevistar, forjado com o nosso substantivo entrevista, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido. Entrevista, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso, ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente, portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e berrantes. Mas entrevistar tem um não sei que de surrateiro que desagrada—e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia impôr. Interviewar, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar resignadamente este feio americanismo—já que os nossos idiomas neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos, possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes. Fabricae um que substitua o interviewar e sereis bemditos).

E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente, apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis, porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos, só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os reporters, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.

O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei constitucional que diz sempre—«o meu povo... o meu exercito... a minha armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação, sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e d'algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios, ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «meu povo», de «meu exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia:—para nós elle apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da unidade italiana.

Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados. Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens, mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo historico.