De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve, percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com tradicional e humana ingenuidade:
—É bom este Chablis?
O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente:
—É uma peste.
O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle homem veridico. Depois repercorreu a lista.
—Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?
O criado, muito serio, replicou:
—É horrivel.
Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga e escura que o invadia:
—Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?