Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam, no Salão, a curiosidade e a admiração do publico.
Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico, ou antes o Guia Critico, do Salão, publicado pelo Jornal, lhes indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes deviam parar, e fazer ah! e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela, recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina mental.
Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista, symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses, e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura, divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.
Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do pensamento.
É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan, a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião, espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do Figaro, ou se trate d'um vaudeville e o Ulema seja Sarcey, do Temps.
D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero, intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois livres!»—e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes, obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem pensar mais e sem mais querer, porque a palavra essencial foi dita, elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer e para pensar por elles.
De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar. Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia outr'ora a Voltaire:—«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:—e que, se já era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d'arte, é necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo—porque, como se sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses, os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação artistica:—e n'uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d'um quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra tempo para ter bom gosto!»
Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte, já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar, pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem gravata. Tudo n'este nosso seculo é toilette, dizia o velho Carlyle.
O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?
N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como é todos os annos a abertura do Salão, cada bom burguez (para usar o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões, como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento, dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um senhor.