Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como um cartucho—e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat, dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.

E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo, á entrada do Salão, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do Cavalleiro das Flores, de Rochegrosse, ou do Papa e o Imperador, de Laurens, ou da Brunehilde, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de prosa desbotada e fugaz.

Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é, segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil, pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. O que seria petulante.


XVII. CARNOT.

O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.

Com effeito! Que rara inverosimilhança!

O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como Henrique IV ou como Marat!

Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a municipalidade de Lyão para assistir, no Grand-Theâtre, a uma representação de gala.

O seu landeau, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem, trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o rebordo do landeau, tocou no peito do presidente com as flôres ou com o papel. O maire de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o maire de Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n'um relance o salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o presidente para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião de Honra! E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d'esses homens que se não suppõe que possam ser accommettidos—senão para serem roubados.