Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa imaginação.
De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n'elle uma tal profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação—mas a rua illuminada de uma cidade em festas, n'uma noite de gala. Todas essas flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu landeau, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa sinceridade provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da Legião de Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da França, grita—«Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade da França cáe para cima das almofadas do coche, com a face descomposta, livida! Foi um qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os sapatos rotos, uma velha jaqueta de panno côr de mel, que, n'um relance, lhe enterrou um punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o braço não é mais do que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e que vem debaixo, de longe, de muito longe, das camadas escuras do proletariado esfaimado... E o landeau lá vae, lá foge a galope, entre o ancioso tropear da escolta, levando o chefe de Estado que se escoa em sangue. O Estado, recentemente para o proteger, gastára mais um milhão de francos em reforçar a policia!
Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do landeau da côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo! Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os couraceiros o landeau d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot! Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha, terrivel, quasi burlesca—o chefe do Estado estendido, com a gran-cruz, a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda da camisa fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa entre ovações—ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos foguetes. Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas o sulco arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta!
Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous reporters, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico, se apoderam do corpo do presidente e o arrancam do landeau, um agarrando uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte através das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal conhecida ainda, estreiado n'esses dias de gala.
Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só devia recolher tarde, depois da representação de gala no Grand Theâtre; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as festas, para os fogos da Exposição:—e as luzes estavam apagadas, todos os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido, desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.
Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está passando alguma cousa de irreparavel.
Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam, se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...
Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de Estado.
Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo, n'uma suprema decencia:—e em torno d'elle não havia senão os brancos marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.
Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as suas insignias—e apertando na mão já hirta um par novo de luvas brancas. Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra o seu cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como chefe de Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na mão as suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um pagem.