Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.

Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o cavalleiro perfeito e lhe chamou, sorrindo, seu filho. Assim, através das edades, a tradição liga Carnot a Roldão.

Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade, um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor, deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot, vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um fiacre, com vadios e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. Estranho remate de uma noitada estroina—seguir n'um fiacre o cadaver d'um chefe de Estado!

Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz, n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas ao presidente que passa para o Pantheon.

Funeraes magnificos, de certo—mas de uma magnificencia muito cerceada pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:—e o severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres—a sumptuosidade dos trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os incensadores fumegando, os coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, as insignias symbolicas, os trophéos, os andores, os estandartes, os carros de deslumbrante architectura, a riqueza patricia, as criadagens agaloadas, e o incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas mitras, as suas purpuras, as suas casulas de ouro—toda essa magnificencia esthetica aqui falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou Roma, da Florença dos Medicis ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, contemplando esta procissão funeral, que uma opulenta e artistica nação estava fazendo a apotheose do seu chefe assassinado. Todavia a França, dentro das restricções impostas pela sobriedade do seu gosto e pela simplicidade da sua democracia, prestou a Carnot, largamente, todas as homenagens e preitos symbolicos. As flores que lhe offertou, foram incontaveis, custaram mais de tres milhões de francos, e durante todo um dia perfumaram o vasto ar de Pariz. E toda a França organisada, desde os corpos d'estado até aos clubs gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao Pantheon, que a patria reconhecida reserva aos Grandes Homens.

Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas sobre carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de dous metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, não podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos, e em breve murchos.

E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de casacas pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho as casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as fardas d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates destacavam, n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se prolongavam, se eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando em cadencia. Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava por fim senão á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato preto.

E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em longas milhas, calças pretas, casacas pretas.

Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de Carnot:—e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira tricolor, se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres. Depois, á frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas grandes vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos uniformes, appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade consideravel! E então se attentava mais em que esta tragedia do presidente assassinado fôra realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e ministrada pela Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das mãos do arcebispo de Lyão.

Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope, n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario. Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes, livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia, abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!