Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de Pariz o radicalismo compungido—e é para os altares que o vae levando.
Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as unhas, horrendamente humilhado.
Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte, espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com aviltante desdem—um producto de exportação!
Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em Pariz—producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. Sic transit gloria diaboli.