Quem melhor conselheiro e bom amigo
Que o marido que a alma m'escolheu?
II
As neves que na fronte se accumulam
Terminam por cahir no coração...
agatha (cahindo de joelhos nos pés de Julio)
julio
Impurezas do mundo não me roçam
Nem a fimbria da tunica sequer.
Amici, la notte é bella,
La luna va spontari...
Di cà, di là, per la cità
Andiami a transnottari...
III
E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço!
A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!
Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.
Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus ais. Luiza achava-a funebre.
Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a sua antipathia;—e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:—a piorrinha! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de reis a Jorge,—e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.
Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca vira semelhante desproposito! A unica vantagem—dizia ella á tia Victoria—era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella!
Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e satisfazia o seu vicio,—trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.
—Como poucos—dizia ella—não vai outro ao Passeio!
E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,—a mostrar, a expôr o pé!