XII

Não ouses, temerario, erguer teus olhos
Para a mulher de Cesar!

Dies iræ, dies illa
Solvunt sæcula in favilla!...

«Meu caro amigo.

Sua amiga

Leopoldina».

XIII

—Bufa! bufa!—gritou de cima Juliana—mas vai-te indo para o olho da rua!
Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!
—Se eu t'apanho!—rosnava a Joanna descendo.
—Rua! rua, sua porca!—gania a Juliana.
Luiza então chamou a rapariga:
—Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã—disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a Carta adorada, com um jubilo estridente.
E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o jantar na mesa».
Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto;—e alli jantou, a um canto da jardineira.
Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...
—E isto...
Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
—Oh Sebastião!—murmurou ella, com um reconhecimento commovido.
—E carruagem, tem?
—Não
—Eu cá mando. Ás oito, hein?
E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados.
Nós de dedos bateram á porta do quarto:
—Então a senhora não quer jantar?—disse a voz impaciente de Juliana, de fóra.
—Não.
—Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas.
—Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?—disse logo, muito alegre, a excellente senhora.
Um capricho!—O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel Gibraltar.
—Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir—disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido.—Apertar-me depois de jantar! Felizmente, não tinha comido quasi nada!
Quiz então saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois estava mais longe [d'aquella] noitada de theatro!...—E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.
Uma carruagem parou á porta.
—O trem!—disse, toda risonha.
Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?
—Ai! o meu ramo!—exclamou Luiza.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida p'ra theatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:
—Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou.
O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:
—Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro!
—Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!—fez Luiza impaciente.
Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do Gibraltar, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola.
Perguntaram por Jorge.
E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, vestida de soirée, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.
—Estão a arder por saber quem somos.
Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,—e pondo o chapéo mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.
Jorge correu á portinhola do trem, rindo:
—Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o divorcio!
Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atraz no camarote.—E para as não amarrotar subiu para a almofada.

XV

Al pallido chiarore
Dei astri d'oro.