Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan.

—Mas Gamaliel—dizia soberbamente o escriba—é um homem alheio a nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei.

—Homem—disse eu—em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo as lettras gregas?

O escriba riu finamente, como em triumpho:

—Pois não diz o texto:—e a sua voz era compassada e emphatica—«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres desagradarás ao Eterno?» Ora—e traçava amplamente a capa, tossindo, victorioso—ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.

O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente, batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se, risonhos.

Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores, espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das primeiras columnas, batendo em discos de metal.

Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola prophetica d'Israel.

—É um ignorante—diziam, com desprezo, vastos doutores.

Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do Mestre: alguns velhos diziam:—Sim, sim, irmãos, este é um propheta!