E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.
Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez o estreito sorriso do velho conteve a esperança!
VI
Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras.
Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel, hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah: Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan.
Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de seivas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discipulos de João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só, em Jerusalem.
N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi, entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido, a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos, sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas, delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se, superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra—aos olhos, á testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam um pouco semelhante a Judas Galannite, o poderoso agitador, em quem a acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.
Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.
Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes. Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:
—Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas.