A alma tinha emfim um logar, o seu logar, o seu espaço, que era o reino de Deus. O reino de Deus era o reino das creanças, dos simples, dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano, e até do pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós não quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os phariseus, os saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os principes! vinde vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados, os enfermos, os culpados, todos os que elles repellem, todos os que elles amaldiçoam! Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados, porque tereis fome! Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lagrimas!
Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro, coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora o Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo, porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano?
Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado.
—O culpado é infeliz—dizia:—merece por isso mais que o justo o calor do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso, porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.
—Havia uma mulher aqui—dizia-me o homem bom de Chorasin, que me explicava estas coisas immortaes—que era repellida, mal vista, amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se sente amante, mais se sente perdoada.
Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos seus, confundido com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas; ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as creanças vinham, vinham as mulheres:—«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa nova: és tu o Messias?»—Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os; quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho. Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:
—Mestre, tu és bom.
—Bom só é Deus—dizia elle, sorrindo.
—Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo?
—Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!