—Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario—dizia elle.—Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos campos.
—Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura. E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!
Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento, o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.
—Vendei o que possuís—dizia elle—dae o dinheiro em esmolas!
Realmente de que servem na Galilea as riquezas?
Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul, mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco, para elle resplandecem os regatos.
Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.
O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana. O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva.
—Porque, em verdade, vos digo—ensinava o Mestre—que é mais facil passar um camelo pelo fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.
Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses, as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir, esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da terra tem alimentado.