—Que volte, que volte para a Galilea!

E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos interiores d'Hannan.

O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco, cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.

V

No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea, em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.

Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus.

Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth.

Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se progressivamente no meu espirito.

Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante, tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos, outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou, contando as parabolas, concertava a sua rede.

Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.