Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados, oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho, tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.
Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo. Todos admiravam.
O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!—E fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz branda, curvando-se:
—Que estas mulheres syrias—dizia—teem uns olhos escuros, que valem centenares de sestercios!
Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, desejavam.
—Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive!
Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para lembrar a morte e o terror de Jehovah!
—Devassas, dignas do fogo—para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.
Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos; bradava os nomes das damas romanas:
—Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu na estatua do Pudor!