H. Heine,—allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um espirito francez,—Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima e completa das suas obras, que o Romantismo phantastico principalmente impressionou a Eça de Queiroz.

Por toda a parte, nos escriptos das Prosas barbaras, se encontram os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular germanico, os aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romantico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma pelo segredo da circulação do sangue»,—que passam de continuo nas narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios», as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia de Walpurgis, as cathedraes da Allemanha, o Rheno, o Mar do Norte, «a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde vão os Minnesingers errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua Melancolia, onde correm as caçadas phantasticas do Freischütz e passam os Imperadores do Santo Imperio, Fausto, Mephistopheles, Margarida, Luthero... Spohr Weber...

O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua influencia consideravel em Eça de Queiroz,[14] só se deu d'uma maneira importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição em volume das Flores do Mal só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me, na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca do Gremio litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas francezas, as poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez publicado.

Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio, impassivel, correcto de maneiras e toilettes, sempre preoccupado com a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o phantastico é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem duvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão lucidamente estranha. N'elle o delirio é sempre critico, a nevrose intensa, mas methodisada. Cria na arte o frisson nouveau que Victor Hugo celebra, mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores fórmas da sabia lingua franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a vibração.[15]

São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de transição, quando, gradualmente impressionado pelo Realismo e por Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de escriptos.

Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan Poe, que Eça de Queiroz,—ainda então ignorante de inglez,—só conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria com que o espirito americano determinou o nevrosismo das Historias extraordinarias, accentua-se ainda mais,—privado, em todo o caso, da indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,—nas fórmas logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.

Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,—Musset, Gautier, Mallefille,—é sensivel n'este primeiro periodo da vida litteraria de Eça de Queiroz.

As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se são pouco numerosas e superficiaes:—quasi sómente as da poesia popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,—João de Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o Milhafre[17] que suggerio a Anthero de Quental uma das suas poesias.[18]

Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que nova lingua portuguesa.

Mas esta Introducção ás Prosas barbaras tem por fim explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que differenças profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico do Escriptor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas reunidas n'este livro.