A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,—a de Heine,—foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por Anthero de Quental sob o nome de Primaveras romanticas, e no que este diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;[9] vê-se tambem nas poesias primeiro escriptas para o Seculo XIX de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois colligidas, com o titulo de Lyra meridional, por Antonio de Azevedo Castello Branco.
Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas traducções francezas,—algumas feitas pelo proprio author, outras por este em collaboração com Gerardo de Nerval,—um caracter novo.
Heine é para mim,—e não é para todos ainda hoje, mesmo na Allemanha,—um dos maiores escriptores das linguas germanicas. Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos biblicos.
Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,—que eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,—quando Eça de Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos Reisebilder onde Heine,—a quem a musica sempre suggeria fórmas e côres definidas,—conta as transformações phantasticas porque a seus olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo XVIII, assassino por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as abobadas de cathedraes, genio planeta entre as harmonias apotheoticas das espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos dos auditorios.
Em muitas paginas das Prosas barbaras se encontra a influencia d'esta lenda phantastica de Paganini.
O conto a Ladainha da dôr, que tem o proprio Paganini por assumpto,[10] é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As Notas marginaes[12] parecem estancias do Intermezzo ou do Livro de Lazaro.
Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da França no Romantismo germanico. Foi elle o primeiro traductor francez do Fausto de Goethe, e, como já disse, o collaborador, com Heine, na traducção d'algumas das obras d'este ultimo.
É evidente, nas paginas das Prosas barbaras, a influencia dos proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:
Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,
Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie...
Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé
Porte le soleil noir de la mélancolie!...[13]
Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição mythographica e profunda,—sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua Historia de França,—da Edade media, da Renascença e da Reforma,—e, na Sorcière, pela materialisação sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do Diabo,—foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de Queiroz.