O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres elementares.[7]

N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, definição, brilho,—e correlativamente perdendo meias tintas, claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os Romanticos das raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.

Eis porque tantos romanticos portuguezes,—no extremo dos paizes claros do meio dia,[8] só fôram superficialmente romanticos.

Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do explicavel,—como que para preencher as lacunas deixadas no completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do comprehensivel,—existem com effeito, infinitamente, as necessidades mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.

É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.

Essas fórmas constituem a Arte e a Litteratura mystica e phantastica.

A França,—a mais norte das Nações definidoras,—recebeu, em grande parte, a sua Litteratura phantastica da Allemanha. Da Allemanha, por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a 1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.

E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades intimas e latentes, me commoveu ella,—a mim e a outros espiritos contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos das raças e dos climas claros e definidores do sul.

V

Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de Queiroz,—aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu posso dar testemunho,—fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.