Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito, resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas as nevroses.
Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,—por isso quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.
Toda esta revelação espiritual,—toda esta descoberta de regiões ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,—pareceu ser, ás gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.
A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, o nome de Romantismo,—facto esthetico, ainda hoje em busca de sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece poder essencialmente definir-se, como a procura directa de fórmas de expressão, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso, para as mais intimas ideias e os mais vagos sentimentos do espirito humano.
Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo XVIII, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa durante o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio e saude normal.
O Romantismo pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada d'essa «Edade media».
É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças humanas,—com o integral resultado de forças naturaes que são,—deram fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes, com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações de espiritos e actividades.
Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade Media, sem duvida solicitaram a interpretação dos Romanticos, cuja rasão de ser, cuja missão era tambem, como já mostrei, expressar completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito.
Mas o chamado Romantismo deu-se na Europa dos fins do seculo XVIII aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Litteratura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o romantico Eça de Queiroz aos Romanticos portuguezes de 1866?
É o que vou explicar: