Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio de estudo, os Preludios e Fugas de Bach, as Sonatas de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin.

Os Folhetins de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que, justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos grandes creadores da musica moderna.

Esses Folhetins pareceram-me uma grande novidade,—não tanto nos assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura portugueza, insufficientissimamente revelados.

Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses Folhetins eram, ainda no anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da lingua portugueza;—como haviam sido, para todo o sul da Europa, á apparição do Romantismo francez nos primeiros annos do seculo XIX, as mesmas ideias e estylos semelhantes.

N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que geralmente se denomina um Romantico. Elle proprio dizia da epoca immediatamente anterior:

«N'aquelles tempos o Romantismo estava nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5]

E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» que leva ao «hospital romantico...»[6]

Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais evidentes da Litteratura, uma inalteravel saude: Só certos factos do espirito perfeitamente determinados,—só as ideias e os sentimentos susceptiveis de clara determinação,—eram n'essa Litteratura expressos. Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos, os generos litterarios,—tudo parecia claramente, definitivamente assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, com o minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na Europa, em geral, a gente culta, do seculo XVI ao seculo XVIII.

Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o branco descobriram-se gradações infinitas.

Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos, susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns que podiam ser nitidamente,—como que linearmente,—desenhados, inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das almas.