E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos supersticiosos, murmurava persignando-se:

—É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas: Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.

Na epoca em que se publicaram os Folhetins da Gazeta de Portugal, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assiduo era, por esse tempo,—além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga que, quando apparecia, se occupava toda a noute em explicar-nos, simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos com desperdicios de lan, o livro do Propheta Isaias, e os Historiadores das origens do Christianismo.

De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:

—Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar. Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto humano,—inverosimil, se fôr possivel tanto,—a aventura, a lenda em acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,—o João de Sá Nogueira,—d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.

E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar, que á ceia nos contava,—durante o bacalhau com batatas, o meio biffe, e o Collares,—as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.

IV

Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor historico.

O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores mestres da especialidade em Lisboa.

N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o Pot-pourri e as Variações. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero de Rêveries. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido ao piano, attingia-se com os Nocturnos de Ravina e Döhler. Os arranjos operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado.