Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o papel que olhava muito de perto.

E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não attendia a cousa alguma,—embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.

Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco: As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma, acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe occorria.

Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus Contos, a figura e a voz completavam-lhe as phantasticas creações:

Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica, livido,—na penumbra das projecções do candieiro,—os olhos esburacados por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e espanto, a voz lugubre, sentimental,—emphaticamente pathetica, ou gargalhando sinistramente,—declamava.

Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,—ou estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então, n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.

—Ás casas sem luz,—escreveu Eça de Queiroz,[4]—teem o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.

D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura, divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras... Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis... Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de se dispersarem pela cidade.

Nas noutes mais serenas,—nas noutes de luar,—saíamos da cidade e íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo, conversando, improvisando, até nascer o Sol.

De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo, respectivamente, e dispondo as botas á porta,—para que o meu creado as limpasse, sem nos acordar,—tambem, pelo mesmo methodo, ordenadamente emparelhadas.