Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel.

Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente, apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão! Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão.

Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis; aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as laminas da lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas. Simeon, absorto, somnolento, bocejava:

—Vinde—dizia-lhe eu—tendes serviço; vieram uns da policia, com uma miseravel mulher.

Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores, membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.

Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil, soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio.

Simeon interrogava.

—Vem presa—dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no silencio;—acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a. Estava em acto d'adulterio.

—Oh!—disseram todos indignados.

E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando: