Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre. Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação: os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!

Invejava quasi o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o Aera e o Moriah, captivos e gementes!

Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?—perguntava a mim mesmo.

—Temos uma patria? Não!—E olhava a torre Antonia, onde os expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.

—Temos uma religião, uma fé? Não!—E via os sacrificadores vestindo os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados, bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!

—Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!—E olhava aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para agradar ao Senhor!

Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não habitava Jerusalem!

Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte, Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me—ou resultados da noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia, ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.

—Ah! Jesus de Nazareth—pensava eu—é o unico homem que nos poderia salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples, que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?

Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal, terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma melancholica e transcendente?