O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz, porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este movimento popular?
Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede soccorro.
—Porque não?!—dizia eu—Surprehendi já nos seus olhos uma vontade dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?
E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me, como inesperadas consolações.
O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados, contentes.
O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza, cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado, dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos, tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a indifferença.
O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado, suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin. N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica, toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.
Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas, a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz!
E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro, hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem? Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus, como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edificações de Herodes, o grande!
Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de tantas forças civis!