Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava, infinitamente triste, com um desdem abatido.

Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias: mas um grande rumor encheu o templo.

Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o baixo recinto do templo.

Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de vozes, de gritos penetrantes.

Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus, couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações. Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto levemente aquilino tomado de afflicção.

A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario: vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.

Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus: havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os pateos.

O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada, abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes cabellos, com uma semelhança pagã.

Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:

—Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que foi achada em adulterio nos porticos do templo.