—Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer o perdão da mulher adultera.

Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a morte.

Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, irritado:

—Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle manda lapidal-a.

Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:

—Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se julgar sem peccado, que lhe atire a primeira pedra!

A sua voz era forte, concava, mysteriosa:—assustava.

A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se: os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos choravam: vozes diziam:—É o Messias, é o Messias! Todos se dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.

Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da milicia templaria.

Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial, a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.