—Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca? Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior, e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu, se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas são de Hillel, são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba, a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado, civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos, officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado, se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um caminho e diz:—Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae celeste!—Não! tal não será, Rabbi!
—Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta—eu sei?—como um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando estarei entre ti?
O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.
—Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito baixo na terra.
Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:
—Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas: nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus? Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as creanças que te sorriem?
—Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças.
—Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes?
—Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!
—Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?