Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto esclarecido, disse-me docemente:

—A fé salva.

E depois d'um momento:

—E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?

—Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso, ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.

—E tu quem dizes que eu sou?

—Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hypocrisias, vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!

—Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a perdel-as.

—E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita? É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos imbecis de Tiberio?

—Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.